Nunca vos convidei para entrar, mas conhecem demasiado bem a minha casa
Existem duas amigas que quando andam de mãos dadas, se tornam invencíveis.
A solidão, que nos leva para lugares sombrios. Esconde-nos as velas, e faz-nos esquecer como ligar os interruptores. E a ansiedade, que nos conta histórias horríveis, planta ideias e faz-nos acreditar, mesmo sem provas.
É difícil este caminho. É difícil esta luta contra duas emoções tão fortes. Entender as coisas não as torna menos dolorosas.
Às vezes elas separam-se, a solidão vai embora e deixa-me com a ansiedade, que me capta tanto o pensamento e faz-me pensar com tanta força no quão insuportável é, que faz com que rapidamente a sua companheira volte, e as duas, são impossíveis. Têm um grande poder: afastar quem mais amamos.
Existe uma delas que eu consigo suportar. A solidão. Consigo abraçá-la e passar tempo com ela. Conversamos muito e ela acaba por me conhecer bem. Sabe o que me faz bem, o que me distrai, o que me deixa feliz. Mostra-me o meu lado criativo, independente, o lado que eu mais gosto em mim. Fala-me muito da solitude, e aprendi a gostar dela. Mas chega a uma altura que cansa. Quero que se vá embora. Como uma velha amiga que nos deixa bem-dispostos, com quem partilhamos experiências, mas chega ao final do dia e queremos voltar para casa sem ela. Quero voltar para para a presença humana que me aquece o coração, mas ela não me deixa. Sufoca-me com tanta força, obriga-me tanto a estar ali com ela, faz tanto barulho, um ruido tão alto, que acaba por chamar a atenção de quem eu mais temo: a ansiedade.
Eis o momento em que ficamos as três. Elas, felizes por terem conseguido, e eu derrotada por não as conseguir mandar embora.
É duro este caminho. Entender as coisas não as torna menos dolorosas. Às vezes é muito difícil de lidar com algo que não é inventado, é real. A solidão existe, está comigo muitas vezes. E por mais partido que eu tente tirar dela, acabamos sempre chateadas, porque ela é demais. Não a consigo aguentar sozinha. Não a quero a toda a hora. Infelizmente tenho-a mais do que queria. E a sua amiga… Essa eu não a quero de todo. Não consigo estar perto, tira-me o ar, aperta-me com força, grita-me na cabeça e faz-me acreditar que os meus sonhos nunca se vão realizar. É ela que me convence de que preciso ligar a pedir garantias para provar que tudo o que me está a dizer é mentira.
É ingrato este caminho. Para mim, e para quem me acompanha. Porque é difícil perceber para quem está de fora. Quem não conhece a ansiedade e lida pouco com a solidão, acha que é uma coisa boa, só vê sentimentos bonitos e de libertação.
É ensurdecedor os gritos delas as duas juntas, mas tenho feito um esforço muito grande para ligar a música mais alto, para mergulhar em livros e esperar. Esperar que a ansiedade me dê tréguas, me deixe descansar a mim e a quem me rodeia, e que a solidão perceba que estou farta dela. Vou esperar muito quietinha, sem fazer alarde, para que quando as duas estiverem a bater a porta, eu a abrir e dizer: sei que vieram, hoje não mando em vocês, mas também não vos vou obedecer.
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