Gavetas
Os anos levaram-me a capacidade de colocar em palavras, nas palavras certas, aquilo que o meu coração, que é quase do tamanho do meu corpo todo, tende em guardar. Feliz ou infelizmente, os anos não me impediram de sentir. Pelo contrário. Mostraram-me que não há idade certa para nada.
Há quinze anos atrás, com desassete anos, era uma menina cheia de sonhos, que sentia demais, sonhava demais, amava demais, a luz ao fundo do túnel era aquele desejo inebriante de que, lá à frente a magia ia acontecer.
Hoje, com trinta e dois anos, a única coisa que se mantém é a esperança.
A magia entretanto aconteceu. Foi linda. Vivi os sonhos, senti tudo com a intensidade que me caracteriza. Dei e recebi. Abracei como quem recarregava a bateria para se manter viva. Mergulhei com tanta profundidade e confiança que vir à tona apenas se tornou uma consequência e não uma necessidade. Vivi a vida que quis, com pessoas que tiveram coisas diferentes para me dar: algumas apenas tempo, outras experiências, outras uma história curta, e algumas, um amor arrebatador.
Apaixonamo-nos várias vezes na vida. Todas elas de forma inigualável e incrivelmente bonita. A paixão atual não nos faz esquecer a antiga, faz-nos apenas sentir necessidade de guardá-la numa caixinha, e às vezes ao longo da caminhada, temos até tendência em voltar a abri-la para a reviver. Quando percebemos que já não faz sentido, voltamos a fechá-la.
Mas há uma das gavetas... só uma. Que não é possível fechar. As vivências, o peso dos sentimentos, a fervura com que sentimos tudo, transforma-se numa memória tão dolorosamente forte, que ocupa um espaço imenso. Só acontece uma vez da vida. Normalmente é algo involuntário. Não pedimos, não desejámos, não adivinhámos que iria acontecer, mas acontece e atravessa-nos de uma forma tão visceral, que nos corta em pedaços. E para isso, não existe gaveta grande o suficiente.
Não consegui ainda descobrir o que fazer com a dor causada por alguém que não consegue sequer imaginar a destruição que nos causou.
Quão bem estruturados temos de ser?
Quão à prova de bala?
Como é que se aprende a confiar novamente? Quando a promessa que julgamos mais verdadeira, bonita e pura, nos é quebrada, assim, sem justificação? Da noite para o dia?
Quem é que nos ensina? Quem é que nos prepara para isso?
Como se voltam a construir memórias depois disto? Como nos permitimos a amar de novo? A sonhar de novo? A criar memórias para encher novas gavetas?
Agora ela não fecha. Por mais força que tente fazer para que fique tudo guardado e empurrar à força, não é possível.
Como é que se abre outra ao lado, se cada vez que pensamos sequer nessa hipótese, temos um vislumbre do que ali está, a impedir que as memórias fiquem trancadas.
A dor, tem-me ensinado muito.
Empurrou-me de forma obrigatória para um lugar do qual eu sempre fugi: a solidão. O encontro com o meu próprio ser. O auto-conhecimento.
A responsabilidade afetiva, aquilo que estamos dispostos a dar ao outro, parece um termo tão banal. Percebi entretanto o peso que tem e o que não devemos prometer se não estivermos dispostos, pelo menos, a tentar, a esforçarmo-nos para isso.
A dor ensinou-me que os traumas e as cargas pesadas que carregamos - muitas das vezes que nem sequer são nossas - vão pesar a vida toda, se não pararmos a meio do caminho para as olhar de frente e as desconstruirmos.
Ninguém consegue caminhar muito tempo com algo que não lhe pertence. Isto não é só sobre cargas. Serve para pessoas também. Entretanto, aprendi sobre livramento. O que não é para nós, vai-nos desiludir até que aprendamos. Não vale a pena insistir, a vida vai sempre arranjar forma de tirar do nosso caminho aquilo que nos ia fazer mal. Mas não sem antes nos ensinar o propósito. Embora muitas das vezes não o consigamos ver, ele sempre existe.
um coração tão partido, incapaz de sentir amor até por quem já sentiu um dia
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