Dar-nos-ão apenas o peso que somos capazes de suportar

Acho que o lado mais triste da vida, o pior estado a que alguém pode chegar, é quando não existem mais forças. Quando o ser humano bate no fundo e se sente desesperado. Já tive o desprazer de sentir esse abismo, acreditem, é profundo.
Acho também que por mais que escreva, por mais capacidade que tenha de conseguir colocar em palavras aquilo que vai na minha alma e na de muita gente, nunca vou ter capacidade de escrever sobre isto. E perdoem-me os guerreiros que lutam todos os dias, que sofrem por alguma coisa palpável. Perdoem-me, mas esta é a minha luta interior. E dói tanto. Não se compara à física, essa é a única coisa extremamente forte capaz de me fazer deixar de sentir.

Mas felizmente isso não existe aqui. Aqui só existe uma alma completamente vazia. Já pensaram? Perder o amor? Não é uma pessoa, não é o ser humano feito de sangue, carne, ossos e pele, é perder tudo aquilo que faz dele aquilo que ele possa ser. Não é perder a pessoa que vos dava a mão ou abraçava nas noites frias, é perder a magia que existia cá dentro sempre que esses atos eram praticados. Não é sentir falta do ser humano que se movimentava, é morrer de saudades do que aquilo que existe dentro dele, fazia despertar em mim. O corpo continua ali. Os traços não mudaram. Os hábitos, embora alterados, são suportáveis. Tal como os costumes. É fácil crescer com alguém, não notamos diariamente as mudanças. Notamos um dia, quando estamos sentados, sem que seja notável a nossa presença, e olhamos para a pessoa que temos diante de nós e fazemos uma retrospetiva de tudo. “Olha só o que eras… Olha só no que te tornaste…” E se ali estamos, e sorrimos, é porque isso só pôde ser bom, tolerável. Mas é extremamente difícil crescer quando não estamos por perto. Um dia cada um vira as costas, porque é necessário, é quase obrigatório que assim seja, porque se tornou sufocante, porque se tornou intolerável, vergonhoso, e até passou pelo ridículo. E as portas fecham-se. Trancam-se e nem queremos lembrar de onde guardámos as chaves. Mas é agora, aqui, passado tanto tempo, no preciso momento em que nos deparamos com a chave guardada, que não hesitamos em abrir a porta que decidimos fechar. E sem esperar nada, mas a esperar tudo, não conseguimos lidar com a nova disposição das coisas. Está tudo diferente. Não assistimos à mudança, o crescimento passou-nos ao lado. E é uma vontade tão forte de nos adaptarmos outra vez, de nos sentirmos em casa como antes. E não dá. É agonizante. É isso que não deixa com que as palavras sejam proferidas com clareza, que as lágrimas parem de escorrer. É aqui que eu estou. Isto é aquilo a que eu chamo de abismo, na melhor forma que o consigo descrever. Está tudo aqui. Há recordações por todo o lado a dilacerarem-me o coração. Sempre existiram. Mas a porta estava fechada. Agora, parece que o que se fechou há tanto tempo faz mais confusão que nunca. O que antes era só uma porta fechada deu agora lugar ao sentimento mais vazio de sempre. E o que pode ser pior que não sentir nada? Está tudo aqui. Estou a olhar fixamente, estou a penetrar no olhar e a tentar recordar-me do que me fazia sentir que a magia existia, só para mim. Mas embora esteja tudo tão presente, não sei o que me impede de agarrar. Já nada faz com que a dor alivie. Aquilo que antes me fazia crescer água na boca agora provoca-me secura. Estás aqui. À minha frente. Igual a sempre. A mesma voz. O mesmo toque. O mesmo olhar. O mesmo riso. E já nada é igual. Porquê, amor? Onde foi que nos perdemos? Eu procurei tanto a felicidade, procurei tanto por ti nos lugares onde pensei que te poderia encontrar. Mas tu não estavas lá. Em lugar nenhum. E agora eu sei porquê, amor. Porque sempre estiveste aqui. A felicidade sempre esteve onde a deixámos. Mas tu sabes amor, jamais devemos voltar ao sitio onde fomos felizes. Se um dia tivemos a coragem e necessidade de abandonar, foi porque achámos que seria o melhor, e tu sabes amor, devemos sempre escolher o que achamos melhor. Não sei ainda se me arrependo ou se foi o ato mais bravo que fiz até hoje. Mas uma coisa eu sei, há muito mais que isso. Eu também não sabia. Somos ignorantes enquanto não temos a coragem de arriscar. Eu tive, amor. Desculpa. Perdoa-me. Podes até odiar-me. Eu quase que consigo sentir o mesmo de mim. Mas teve de ser, acabaram-se-me as forças. Esgotámo-nos psicologicamente com chamadas de atenção e pedidos que não foram atendidos. E agora é esta a consequência. É este o sabor amargo dos atos irremediáveis. Mas também é aqui, no meio da batalha, das lágrimas e dos apertos no coração, que percebemos onde estão as forças que nem sabíamos que existiam. Mas vai passar. Eu sei que sim, sabes porquê, amor? Tudo passa. Nenhuma dor pode durar para sempre. Nenhum sofrimento é tão duradouro assim, só nos dão o peso que somos capazes de suportar, seja ele qual for. 

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