Recordação Esquecida

Passava horas, sentada a olhar para o mesmo retrato. Chegava até a esquecer-se das refeições que tinha de tomar ao longo do dia, dos deveres que tinha em mãos e quase que não ouvia quando chamavam pelo seu nome. Achava estranho a sua ausência que assegurava uma presença constante junto àquela imagem que, por tanta simplicidade, conseguia transmitir uma ideia de felicidade. Relembrava os tempos em que era feliz. Passeava de mão dada com ele e sorria para tudo aquilo que nem sequer sentido fazia. O tempo passava, cada vez mais rápido, e lá estava ela. Sempre com o mesmo olhar que mais cedo ou mais tarde se direccionava para a tal fotografia. Cheguei a ter medo que não voltasse a ser a mesma menina que eu conheci em tempos, sorridente e bem-falante para com todos aqueles que a cumprimentavam. Ultimamente o seu mundo havia-se tornado tão minúsculo que quase nem dava a possibilidade de entrarmos nele. Isso assustava-me, confesso. Achei que, se se fechasse num pequeno mundo à parte, não a iríamos conseguir ajudar.
Surpreendeu-me, quando certo dia, o seu olhar deixou de ser o mesmo.
Olhei para o quadro, e a fotografia já não mais existia. Sem demora, fiz questão de lhe perguntar o que haveria acontecido a tal retrato que teria sido tão importante. Respondeu-me que o tempo afinal cura tudo e que ao expor o seu olhar sobre ela, apenas estava a reacender a chama que já haveria sido apagada, mesmo sem todos nós darmos conta.

Senti-me feliz por ela. É bom quando temos perto de nós alguém com tanta força e que nunca desiste de ser feliz. E melhor ainda, é sermos essa mesma pessoa, e sentir-mos orgulho por nós próprios, hoje sou feliz e posso dizer com toda a certeza: CONSEGUI! 

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